AULA 1 - A FILOSOFIA NO CRISTIANISMO (aulas nos dias 3, 4 e 5 de março de 2020)



ESTE É O PRIMEIRO TEXTO PARA NOSSOS ESTUDOS.

TAREFA: Você deverá ler este texto. A explicação é dada em sala de aula. Copie as seguintes perguntas e responda o seu caderno.


  1. Qual é o confronto entre a fé e a razão enfrentado pelo cristianismo?
  2.  Como Santo Agostinho concilia fé e razão?
  3. Por que para São Tomás de Aquino não há antagonismo entre a razão e a fé.


Estude o texto abaixo para responder às perguntas acima.

O cristianismo, durante e após o fim do império romano, não se se satisfez com o credo. Entrou no terreno da filosofia. Mais do que isso, foi a forma que a filosofia assumiu por mais de um milênio. Em contrapartida, a fé cristã assimilou procedimentos racionais.

Historicamente, o cristianismo origina-se das pregações de Jesus de Nazaré pela Judéia, então anexada ao Império Romano. Sua mensagem é simples: amar ao próximo, praticar a bondade e desprezar os valores deste mundo, pois a verdadeira morada do homem é o reino dos céus. Jesus se declarava filho de Deus, enviado ao mundo para redimir o homem dos pecados..
Após a morte de Jesus, essas idéias conquistaram inúmeros adeptos em várias regiões do Império Romano. Nessa difusão – para a qual concorreu o infatigável trabalho dos apóstolos –, a mensagem de Jesus (que falava aramaico) passou a se expressar em vários idiomas, como o grego e, mais tarde, o latim. O próprio termo “Cristo”, incorporado ao nome de Jesus, é de origem grega e significa “ungido”.

A difusão do cristianismo trouxe um confronto entre a fé e a razão. O apóstolo Paulo (século I) é o primeiro a enfrentar essa questão. Por isso, não se intimidou quando, em Atenas, viu-se diante de “filósofos epicureus e estóicos”, como narra o livro Atos, do Novo Testamento: “Atenienses, tudo indica que sois de uma religiosidade sem igual. (...) Encontrei inclusive um altar com a inscrição: ‘Ao deus desconhecido’. Pois bem! Justamente aqui estou para vos anunciar este Deus que adorais sem conhecer. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe (...)”.

As duas atitudes de Paulo – a de converter os gregos conciliando-se com seus valores, e a de confronto – coexistem nesse período inicial do cristianismo. Ambas as atitudes são viáveis. De um lado, a idéia cristã de Deus que se fez homem e que se deixou crucificar é um escândalo não só para as religiões pagãs, mas sobretudo para a filosofia, que havia construído. a noção de um deus abstrato, indiferente ao mundo, ou, no melhor dos casos, coincidente com o próprio mundo.

Para a filosofia grega pareceria absurda a idéia de um deus que ama o homem e que se sacrifica por ele. Assim, o cristianismo só pode combater a filosofia.

Por outro lado, porém, a conciliação é possível. Pois o Evangelho Segundo São João não se inicia com a célebre frase: “No princípio era o Verbo”? E o que é o verbo senão o logos? Há inúmeros outros pontos em comum entre a filosofia e o cristianismo, principalmente no uso de certas palavras – ainda que fosse freqüente a adulteração de vocábulos, na tradução da Bíblia do hebraico para o grego.

O mais destacado dos padres apologistas é Clemente de Alexandria (c. 150-215), que introduz uma série de termos gregos (e portanto filosóficos) na linguagem cristão. Dentre eles está a palavra gnosis (conhecimento), que indicaria a perfeição do cristianismo.

Com o tempo isso trouxe problemas para o proprio cristianismo, pois, a gnosis, incorporada ao cristianismo, deu asas ao gnosticismo, uma seita secreta e esotérica. O gnosticismo logo ultrapassaria os limites do cristianismo, afirmando possuir o conhecimento dos mistérios divinos. A Igreja, cada vez mais institucionalizada, acabaria achando um meio de combater essas pretensões de um conhecimento superior, acima da fé.



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Santo Agostinho (354-430)

É  um  dos mais importantes iniciadores da tradição platônica no surgimento da filosofia cristã, sendo um dos principais responsáveis pela síntese entre o pensamento filosófico clássico e o cristianismo.
Santo Agostinho tinha particular interesse nos estudos sobre como conciliar fé e razão. Sendo a mente humana mutável e falível, como atingir, a partir dela, a Verdade eterna? Para Santo Agostinho, a filosofia antiga, apesar de pagã, seria uma preparação da alma, muito útil para a compreensão da verdade revelada. Afinal, sem o intelecto o homem é incapaz de compreender as Sagradas Escrituras. Entretanto, tal como o olho necessita da luz do sol para enxergar, o ser humano necessita da luz divina para chegar ao conhecimento completo, não sendo suficiente (apesar de importante) o uso da razão.
Intellige ut credas, crede ut intelligas (“é preciso compreender para crer, e crer para compreender”) e fides praecedit intellectum (“a fé precede a razão”) são algumas de suas mais famosas máximas. A verdadeira sabedoria, com a qual vem a verdadeira felicidade, não se encontra neste mundo, mas tão-somente em Deus, que é o arx philosophiae (ápice da filosofia). Para alcançá-lo, não basta a razão, é preciso entregar-se na busca da face incompreensível ou inefável de Deus.
Para Santo Agostinho, nossa mente, criada à imagem e semelhança de Deus, possui uma centelha divina, a luz natural (lúmen naturale), que nos da a capacidade de entender as verdades eternas.
Todo o homem possui a centelha divina. Como diz São Paulo: “Não há judeus, nem grego, nem escravo, nem homem livre, nem homem, nem mulher: todos sois um no Cristo Jesus”. Essa é a Teoria da Iluminação de Santo Agostinho. Tal teoria é proveniente da doutrina da reminiscência de Platão, segundo a qual as ideias já residiriam em nossa alma e caberia ao filósofo despertá-las.
Diante da perfeição de Deus, há um problema para esses primeiros teólogos do cristianismo: se Deus é todo-poderoso, criador de tudo, ele também seria criador do mal? Se Deus criou o mal, como defender sua bondade infinita? Se ele é onipotente, seria ele responsável pela miséria e infelicidade do mundo? Para Santo Agostinho, o mal não tem realidade metafísica: todo o mal não é mais que a ausência do bem, a ausência da obra divina. Ou, para ser mais preciso, o mal não é algo que foi criado, não é algo físico – o mal é o “não ser”.




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Santo Tomás de Aquino (1227-1274)

Santo Tomás de Aquino (1227-1274)
Uma de suas ideias centrais é a rejeição do absoluto antagonismo entre a razão e a fé. Para Aquino, existiriam as “verdades da fé”, atingíveis apenas por meio da revelação cristã, às quais não poderemos chegar por meio da razão. Porém, nem todas as verdades seriam alcançadas desse modo, existindo também as “verdades naturais teológicas”. Sendo a razão obra de Deus, poderíamos alcançar essas verdades tanto pela fé como pela razão. A fé e a razão seriam, muitas vezes, rios que desembocam num mesmo oceano.
Em sua Suma Teológica, o filósofo apresenta cinco vias para demonstrar a existência de Deus, ancoradas na filosofia aristotélica:
1.      O primeiro argumento, oriundo da Física de Aristóteles, crê que, se tudo que move é movido por algo, não pode ser admitida uma regressão ao infinito, devendo existir um primeiro motor. Deus, assim, é o Primeiro Motor.
2.      O segundo argumento, oriundo da Metafísica de Aristóteles, defende a ideia de que, se perguntássemos a qualquer fenômeno do mundo sua causa e continuássemos sucessivamente perguntando as “causas de suas causas”, em todos os casos chegaríamos a Deus.
3.      O terceiro argumento, baseado nas noções de necessidade e contingência de Aristóteles, acredita que, se tudo na natureza fosse contingente, passageiro, é preciso que algo do que existe seja perene. Deus é o primeiro ser, origem de toda necessidade.
4.      O quarto argumento, inspirado na Metafísica de Aristóteles, pensa que, se todas as coisas na natureza têm uma qualidade, em maior ou menor grau (tamanho, força etc.), é preciso um parâmetro, a perfeição, que é Deus, portador de todos os atributos e qualidades em máximo grau.
5.      O quinto argumento pensa que se, como observa Aristóteles, a natureza possui um propósito, deve haver uma finalidade para toda a criação, caso contrário o universo não tenderia para o mesmo fim ou resultado. A causa inteligente do universo é Deus.

No campo da política, Santo Tomás de Aquino dividiu as leis em lei natural (visando a preservar a vida), lei positiva (estabelecida pelo homem, visando a preservar a sociedade) e lei divina (que conduz o homem à vida cristã e ao paraíso, guiando as outras leis). Para Aquino, como para Aristóteles, o homem é um animal social e político: a família é a primeira associação, e o Estado, sua ampliação e continuação. O Estado, assim, deve existir, desde que subordinado, no que diz respeito à religião e à moral, à Igreja, a qual visa ao bem eterno das almas. Essa foi a concepção dominante da Igreja Católica, que seria depois combatida por Maquiavel.

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